domingo, 30 de setembro de 2007

CURAR

Mãe Terra e as Árvores Sagradas, Diana Vandenberg

Sábado consagrado às Constelações Familiares, com Paula Matos, em Carcavelos. Grupo numeroso de pessoas que, de coração aberto, estavam ali à procura de respostas para as suas dúvidas, procurando-as neste caso nos desequilíbrios existentes nos seus sistemas familiares.
Há uma alma familiar da qual a nossa alma individual faz parte (para além de o fazer também de outros sistemas) que precisa de estar equilibrada e com a qual precisamos de estar em harmonia para que a nossa vida possa fluir de forma mais criativa e satisfatória.
Há leis desse sistema que devem ser conhecidas e respeitadas, como a lei da ordem (que lugar ocupa cada um no sistema); a lei do equilíbrio entre o dar e o receber; a necessidade de pertencer, de fazer parte do sistema; a lei do amor, da lealdade, em nome da qual muitas vezes fazemos inconscientemente coisas impensáveis...

Nestas sessões tomamos consciência do peso, da importância e do imenso amor - que por vezes não é assim tão evidente para nós - por este primeiro sistema que permitiu a nossa vinda a este mundo. A postura aqui é de profundo respeito e reverência perante o Pai e a Mãe, em relação aos quais seremos sempre os mais pequenos, aqueles que não têm o direito de julgar qualquer dos seus actos, mas tão somente de os aceitar, quaisquer que tenham sido. Como contraponto a isto, também não nos cabe a nós, os filhos, assumirmos qualquer responsabilidade por esses mesmos actos; eles são o seu "fardo", e a eles apenas deve pertencer essa carga. A nós cabe-nos apenas sentir uma imensa gratidão pelo simples facto de, através deles, termos tido acesso à Vida. Sem isto, asfixiamos em "emaranhamentos" que dificilmente nos permitem tornarmo-nos adultos responsáveis e senhores do nosso próprio destino...
A serenidade que sentimos no final é o melhor indicador da justeza, da verdade destes princípios.

Paula Matos acaba de lançar o seu próprio livro, Constelações Familiares – Um Olhar Sistémico para: Relacionamentos, Sentimentos e Sintomas, da Ariana Editora, onde expõe de forma simples e clara os princípios mais importantes desta bela arte de cura, criada pelo alemão Bert Hellinger e desenvolvida por outros, como Jacob Scheinder. Esses princípios são ilustrados com relatos de situações concretas sobre as quais trabalhou ao longo dos vários anos de experiência em Constelações Familiares.

É desse mesmo livro que deixo aqui uma interessante e justa definição de CURA que a autora retirou da obra do psiquiatra David Benor:

“Cura é a influência intencional de uma ou mais pessoas sobre um organismo, sem a utilização de meios de intervenção física conhecidos. Essa “influência” significa concentrar-se na sabedoria e na energia que emanam subtilmente do coração e não apenas nas manipulações e técnicas inventadas pelo cérebro. Curar com o coração não é “tentar curar”, mas permitir que a natural energia sanativa do coração e todas as memórias de curas que já ocorreram, ressoem dentro da pessoa; é permanecer sereno e calado para permitir que o coração estabeleça com outros corações uma coerência compartilhada na forma de prece solidária que transcende os limites das palavras.

A cura através do coração tem a finalidade de nos manter íntegros com os sistemas à nossa volta para podermos cuidar e proteger esses sistemas, que incluem pessoas, plantas, animais e lugares.

“A cura é o processo de manter a conexão de energia saudável fluindo dentro de todos os sistemas. São os sistemas e não os indivíduos que adoecem. Saúde e doença não são extremidades opostas de um continuum. Todos nós estamos sadios e doentes ao mesmo tempo, porque somos sistemas energéticos caóticos em processo de autocorrecção. Estabilidade não significa nunca mudar. A estabilidade sistémica é indicada pelos reajustes energéticos constantes de um sistema. Estamos curados quando nos sentimos íntegros, quando os outros dizem que se sentem mais ligados a nós, quando algo no nosso coração nos faz sentir novamente o encanto do mundo e nos liga a ele energeticamente mais uma vez. Estamos curados quando aprendemos a celebrar a vida em vez de apenas lutar para protegê-la. Quando aprendemos a tornar-nos mais conscientes da subtil instabilidade oscilante que se encontra logo abaixo daquilo que podemos experimentar como “saúde estável”.(David Benor)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O Livro do momento O CÁLICE E A ESPADA


O CÁLICE E A ESPADA,
Riane Eisler, Via Óptima Editores, Porto

Quero ainda chamar a vossa atenção para uma obra que leio neste momento, e que é absolutamente indispensável, ou mais do que isso: VITAL Trata-se de O CÁLICE E A ESPADA, da americana Riane Eisler, de que já falei noutro post. Tudo aquilo que dizem Isabel Allende ou Ashley Montagu não é nenhum exagero. Conhecer o conteúdo deste livro é produzir em nós homens e mulheres, mas particularmente nas mulheres, uma extraordinária e muito curadora revolução mental, pois a informação que contém sobre a nossa história e sobre os modelos de sociedade possíveis abre-nos horizontes inimagináveis. VIVER DE OUTRA MANEIRA É NÃO SÓ POSSÍVEL COMO JÁ FOI FEITO E AINDA SE FAZ. O modelo social de DOMINAÇÃO vigente agora, é urgente que o substituamos pelo modelo da PARCERIA.

Encomendei o livro por aqui, pela Net, e em dois dias tinha-o em mãos. A editora é a Via Óptima, do Porto, e podem aceder a ela através do link que coloquei no meu post anterior sobre esta obra.

Apesar de se tratar da obra de uma cientista social, a abordagem é acessível, o tom muito vivo e lê-se “como um romance”, cheio de encanto e, sobretudo, muito boas notícias!

Imagem: rosaleonor.blogspot

terça-feira, 25 de setembro de 2007

SATURNO

Imagem: Somos Todos Um, Web

Os estudos que fiz no domínio da Astrologia deixaram-me fascinada com esta linguagem tão sábia, tão expressiva e tão exacta, que nos fala de aspectos de nós de que precisamos muito de tomar consciência...

“Em regra, ele é tido como aquele que traz limitação, frustração, trabalho penoso e renúncia; e até mesmo o seu lado mais brilhante está normalmente ligado à sabedoria e à autodisciplina da pessoa que não tira o nariz do seu trabalho e não comete a “atrocidade” de rir para a vida. Pelo signo e pela casa que ocupa, Saturno indica aquelas áreas de vida nas quais é provável que o indivíduo venha a sentir-se frustrado na sua auto-expressão, e onde é muito provável que ele sofra decepções e enfrente dificuldades. Em muitos casos, Saturno dá a impressão de estar relacionado com circunstâncias dolorosas, que não parecem ter ligação com qualquer fraqueza ou imperfeição da parte da própria pessoa, mas que simplesmente “acontecem”, acarretando desse modo a este planeta o título de “Senhor do Carma”. Esta avaliação bastante depressiva permanece associada a Saturno a despeito do mais antigo e repetido dos ensinamentos, aquele que nos diz que ele é o Habitante do Umbral, o guardião das chaves do portão, e que somente através dele é que podemos eventualmente alcançar a libertação por meio da autocompreensão.
As experiências frustrantes associadas a Saturno são obviamente necessárias, uma vez que são educativas tanto num sentido prático como num sentido psicológico. Não importa se usamos uma terminologia psicológica ou esotérica, o facto básico permanece o mesmo: os seres humanos só conquistam o livre arbítrio através do autoconhecimento e só procuram esse autoconhecimento quando as coisas se tornam tão dolorosas a ponto de não lhes permitir outra escolha. (...)
Qualquer um que encontre prazer na sua dor é considerado masoquista; contudo, o que Saturno promove não é o prazer da dor, mas, antes, a alegria da libertação psicológica.”

Liz Greene, Saturno, Editora Pensamento


segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O NOVO PARADIGMA RELACIONAL

A Árvore Sagrada, Diana Vandenberg

A relação tem a ver com movimento e crescimento.
Sondra Ray

Esta mestra espiritual, dá-nos os seguintes conselhos para um bom relacionamento:

Não precisar de ninguém para ser feliz;

Nunca se envolver com alguém que não seja feliz;

Rezar a Deus e aos Mestres para nos prepararem para uma nova relação;

Pôr toda a nossa energia no caminho espiritual e no serviço.

NOVO PARADIGMA RELACIONAL

No novo paradigma, os homens têm direito aos seus SENTIMENTOS e as mulheres têm direito à PALAVRA.

A relação é espiritual e ambos estão juntos para a evolução das suas almas.

Não nos sentimos ameaçados pelo crescimento do nosso parceiro(a).

Suportamos o crescimento do outro.

Existe um ambiente santo entre as duas pessoas.

A evolução é um dos propósitos da relação.

Permite-se que uma vibração mais elevada entre na relação.

Sondra Ray
(Seminário de Almada, 2005)

domingo, 23 de setembro de 2007

O CÁLICE E A ESPADA

"Alguns livros são como revelações: eles abrem o espírito a possibilidades inimagináveis. O Cálice e a Espada é um desses magníficos livros-chave dotados da capacidade de nos transformar e desencadear mudanças fundamentais no mundo. Com a mais apaixonada eloquência, Riane Eisler prova que o sonho da paz não é uma utopia impossível." ISABEL ALLENDE

"Considerado por Ashley Montagu, antropólogo da Universidade de Princeton, como "o livro mais importante desde A Origem das Espécies, de Darwin, O Cálice e a Espada junta descobertas arqueológicas recentes com testemunhos oriundos da arte, da antropologia, da sociologia, da política e da economia para fazer revelações espantosas sobre o passado da humanidade - com implicações que podem revelar-se cruciais para o nosso futuro."

sábado, 22 de setembro de 2007

FABULOSAS MULHERES SÁBIAS

Mais uma das Sábias e Fortes Mulheres de Idade Avançada retratadas pela pintora holandesa já falecida Diana Vandenberg. Trata-se de Elisabeth Kübler-Ross, médica, pioneira, no ocidente, dos estudos sobre o processo da morte e inspiradora dos cuidados paliativos (penso estar correcta a informação...). O seu livro mais famoso é Sobre a Morte e o Morrer.

Vale a pena visitar esta galeria de retratos, que glorificam o esplendor e a beleza da mulher, quebrando barreiras de critérios estéticos ultrajantes para qualquer ser humano.
Ver estes retratos valeu hoje para mim mais do que mil discursos sobre o tema do "termo de validade" de uma mulher em matéria de atracção física (o que é isso, exactamente?) em comparação com um homem...
Não se nota nestes rostos a intervenção de qualquer bisturi. O que se nota é a sua verdade, a sua inteireza, a sua Luz. Com quem ousar contrapor que estes não são seres belíssimos, não vale mesmo a pena gastar o nosso latim ...

(Este é um post dedicado especialmente a Rosa Leonor, a todas as fabulosas mulheres sábias e mais àquelas, como eu, que as têm como modelos...)

O SEGREDO DA ALEGRIA

Dadi Janki, por Diana Vandenberg

Acabo de fazer a descoberta de uma pintora chamada Diana Vandenberg, que realizou maravilhosos retratos de Sábias e Fortes Mulheres de Idade Avançada (entre outros), sendo uma delas a indiana Dadi Janki. Lembrei-me então de uma apresentação desta personagem feita por Jean Shinoda no seu livro Travessia para Avalon:

"Uma visita a Dadi Junki

Havia uma pessoa que Mrs. Detiger tinha para eu conhecer em Londres, antes de partirmos para o destino seguinte: era uma mulher da Índia chamada Dadi Junki: uma chefe espiritual discreta dos Brama Kumaris*, uma organização religiosa a nível mundial, louvada e influente, embora pouco conhecida, com sede no Monte Abu, no norte da Índia. Os "BK" eram a inspiração e a organização que estava por trás de um esforço de meditação internacional, "A Million Minutes for Peace", e os contemplados com o Peace Messenger Award, das Nações Unidas. Fomos ter com Dadi Janki ao centro dos Brama Kumaris, que não passava de uma casa banal numa rua residencial de Londres. Eu nunca ouvira falar dela e não tinha nenhuma ideia pré-concebida sobre Dadi ou o encontro.
Vestia um casaco de malha branco por cima de um sari indiano, simples e branco. Media menos uns bons centímetros do que eu, o que me impressionou muito, porque só tenho um metro e cinquenta e dois e é raro encontrar alguém mais baixo, exceptuando crianças. A cara era redonda e possuía um sorriso encantador: uma espécie de associação de um querubim com uma anciã, o que lhe dava um ar de quem não tinha idade. Encontrámo-la na sala de espera do primeiro andar. Acompanhava-a a irmã Jayanti, que traduzia qualquer coisa, uma vez por outra, mas Dadi Janki compreendia a maior parte com toda a facilidade. Em qualquer dos casos, a mim parecia-me que o seu meio de transmissão não eram as palavras. O que contava era a sua presença, não o aspecto nem o que tinha para dizer. Cumprimentou-nos com a saudação dos Brama Kumaris "Om Shanti", o que, como "Aloha" ou "Shalom", significa "olá", "adeus", e mais coisas. "Om Shanti" quer dizer "Sou a paz"", e era o que dela emanava - isso e um espírito profundamente jubiloso.
Eu iria encontrar Dadi Junki dois anos depois, na Índia, e mais uma vez ficaria impressionada pela combinação de alegria e sapiência que sentia emanar do seu ser, como acontece com o Dalai Lama. Em ambos há uma combinação de criança tímida e luminosa e de sábio. Estão no mundo real comprometidos a uma vida de serviço cujo esteio é a realidade do seu mundo espiritual. São detentores do segredo da alegria. Os arquétipos que personificam são universais, e se formos receptivos a tais arquétipos, há em nós uma ressonância correspondente. Há uma harmoniosa reverberação de cordas íntimas, como acontece entre duas harpas: se a corda de uma harpa for tocada numa sala onde existe uma outra harpa, nesta vibrará a corda que emite a mesma nota. O júbilo é semelhantemente contagioso entre almas, se nos sintonizamos com essa nota específica.
Tal parte de mim mesma estava a desenvolver-se naquela peregrinação. Dois anos depois, na Índia, aperceber-me-ia que andar perto de Dadi produzia o efeito de constelar as sensações de "felicidade sem qualquer motivo especial" visível numa criança que balbucia. Portanto, perguntei-lhe como é que se mudava a saudação "Om Shanti" ("Eu sou a paz") para "Eu sou a alegria". Era "Om kushi".
Os próprios Dalai Lama e Dadi Janki se encontram entre os "sítios sagrados" de peregrinação. A ideia de peregrinação é visitar sítios sagrados, locais onde habita a divindade, para "activar" ou acelerar a divindade no íntimo do peregrino. Os dois indivíduos citados têm um efeito activador semelhante sobre as pessoas, porque o arquétipo criança jubilosa e mestre espiritual estão imbuídos no "Self". O aspecto de criança divina que existe neles estava a impressionar-me porque era uma faceta minha que precisava de despertar novamente para a vida. Essa criança em mim sentiu-se acarinhada, cuidada, "maternizada" por Mrs. Detiger: porque a sua mão de guia me orientou durante a peregrinação, a minha psique estava muito recptiva à criança divina nos outros."
*Ou, Filhos de Brama. A associação existe em Portugal (N. da T.)
(Jean Shinoda Bolen, Travessia para Avalon, Planeta Editora)

ONDE FICA O EXÓTICO?

Hoje é sábado. Que bom! Levantei-me suficientemente cedo para praticar o meu ritual preferido neste dia da semana: depois de fazer a minha série de exercícios (sim!), vestir qualquer coisa leve e ir lá abaixo comprar o Público e o pão fresco para o pequeno-almoço. Depois gosto de me atardar à mesa da cozinha, bebendo o meu café e folheando devagar o jornal, tarefa em que uso de grandes cuidados, tentando evitar o cheiro a pólvora; uma ou outra bomba; ameaças de chefes de estado, muito sob pressão, muito à beira do ataque de nervos (Deus queira que não passe daí...). Penso em Um Curso em Milagres, por exemplo, que nos diz que tudo o que consideramos como real e ameaçador é mera interpretação nossa, e que é sempre possível ver as coisas de outra maneira (daí o conceito de milagre).

Ver as coisas de outra maneira em política, por exemplo, seria pensar antes de mais no bem-estar, no desenvolvimento do outro; querer para o nosso vizinho tudo aquilo que queremos para nós; preservar a vida acima de tudo. Alguns dirão que este raciocínio é infantil e utópico; mas será que tentar resolver conflitos à lei da bala é uma postura adulta?! Será adulto o fascínio pelo armamento, pela ameaça, conquista e sujeição de territórios e de almas, só para que a minha naçãozinha seja mais forte do que a tua? Não estamos já todos fartos de nacionalismos, de pátrias e de fronteiras? Preservar a nossa identidade própria não passa, quanto a mim, por aí...


Bom, mas adiante porque o que me interessa num jornal não é exactamente esta política. Interessa-me inspiração; interessam-me soluções criativas, positivas, conciliadoras, ideias arejadas. No P2 há uma autora por quem nutro uma especial admiração e que leio sempre em primeiro lugar: Catarina Portas. A sua rubrica chama-se Feira da Ladra, e inspira-se muitas vezes em velhos livros encontrados ao acaso das suas deambulações. Na foto de Catarina prevalece o seu lado menineiro e fresco de uma chefe de escuteiros. Mas o que ela escreve, e como escreve, depressa nos desengana (armadilhas dos nossos preconceitos...).

Vou agora transcrever a sua crónica deste sábado, 22 de Setembro de 2007:

“Onde fica o exótico?

Havia um tempo em que a distância era algo que se imaginava com alto grau de improbabilidade, a partir de farrapos de visões de viajantes incrédulos, espantados e muitas vezes apaixonados. A partir de objectos extravagantes de cabinets de curiosités conspicuamente coleccionados, relatos assombrados e assombrosos de viagens peregrinas ou desenhos, e depois fotografias, de paisagens e criaturas tão distantes e tão raras que se tornariam icónicas, sonhava-se. Fantasiava-se, portanto. A história do exotismo é antes de mais uma história de fascínio, misto de paixão e medo, pelo que é diferente de nós. Muito diferente e muito surpreendente.
A raiz do exótico é grega, e exotikos quer dizer isso mesmo: o que é exterior a nós, estrangeiro então. E há duas atitudes possíveis face a um mundo demasiado estranho e gente absolutamente diferente.
A primeira será a de tentar reconhecer semelhanças, reduzindo o novo ao já conhecido, forçando o encaixe dos elementos perturbadores num esquema familiar. Assim se estabelecem comparações, quantas vezes disparatadas e, frequentemente, deturpadoras da realidade. A outra postura, totalmente
diversa, será a de rejeitar a diferença, classificando-a como bárbara ou selvagem, porque desconhecida. Banindo o oposto, resguardam-se convicções, pisa-se terra firme e familiar. A consequência mais vulgar de tal atitude costuma ser impor aos outros a sua própria realidade e modo de ser. Digamos que desta segunda forma de olhar o outro nasceu o colonialismo e a outra, a primeira, deu origem a escolas como o orientalismo e interpretações afins, construções pretensamente científicas sobre o mundo dos outros (e porque as coisas nunca são simples, as relações entre um e outro foram frequentemente promíscuas, como tão bem analisou Edward Said).
Mas hoje, num mundo obcecado pela comunicação, nação universal em modo de export-import de imagens, modos de vida e todo o tipo de gadgets e bugigangas, onde fica o exótico? Na era do turismo, tornou-se uma paisagem cliché, que vai dos novos resorts das praias algarvias a qualquer outra praia onde tenha aterrado um charter neste planeta: um mesmo décor com mais ou menos palmeiras, uma mobília de verga filipina de design recurvado, pratos quadrados com iguarias minúsculas e rocambolescas e cocktails coloridos. O outrora exótico tornou-se definitiva e infalivelmente vulgar.
Agora a excitação já não é conhecer as Índias, pois se lá formos o que fazemos é sobretudo reconhecê-las. Talvez o estremecimento de descobrir algo novo e implausível se situe agora muito perto de nós, da nossa casa, de quem fomos e do que somos. Talvez o exótico, para as criaturas citadinas, cosmopolitas e abundantes que somos hoje, seja afinal uma sensação mais forte numa aldeia perdida de Trás-os-Montes, diante de uma paisagem serrana vertiginosa, abrigados em casas de materiais primitivos e misteriosos, deparando com palavras, técnicas, saberes e objectos que nunca conhecemos (e já quase perdemos). O exótico está em nós?”

(Catarina Portas, Público, 22/09/07)

- Catarina, a minha resposta é SIM.
Exótica será por excelência essa imensa parte de nós, a nossa psique (psykhe para os gregos), continente tão perdido de nós mesmos... Essas imensas partes submersas dos icebergs, que, segundo aqueles que tentaram mapeá-los e desbravá-los (como Jung e tantos outros) são os nossos inconscientes, o pessoal e o colectivo. Trata-se, ao que dizem, de fabulosos espaços com todos os ingredientes para cativar os amantes do turismo mais radical que se possa conceber...

Imagem: Indonésia, Java, Borobudur-Diana Vandenberg

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

ARTEMISA NA FLORESTA


COMUNICAR COM A TERRA INCÓGNITA

“A floresta era o reino da deusa grega Artemisa (a Diana dos romanos), deusa da Caça e da Lua. Artemisa é um arquétipo presente nas mulheres que são espiritualmente alimentadas pela Natureza-Mãe, e estão instintivamente sintonizadas com a sua própria faceta “silvestre”. Como arquétipo da deusa virgem, Artemisa é um espírito dedicado a si mesmo, independente. Muitas mulheres são Artemisa arquetipicamente, antes do duplo impacto da puberdade e do patriarcado as tornarem “donzelas sem mãos”. Ela é também um arquétipo encarnado: está na rapariguinha que trepa às árvores e pode ser ressuscitada por uma mulher que se torna outra vez activa fora de casa.

Somos incomodadas por qualquer faceta nossa que não seja olhada com bons olhos no nosso mundo, ou seja rejeitada por este, ou de que tenhamos vergonha, e é provável que amputemos em nós, se pudermos, seja o que for de desagradável para os outros, aquilo que eles achem inconveniente ou os perturbe. Essas são aquelas nossas facetas que não se desenvolveram ou que eliminámos, olvidámos e perdemos de vista, e, afinal, podem ser fontes de vitalidade e significado. Qualquer arquétipo que tenhamos eliminado em nós está vivo na floresta do nosso inconsciente. Como a única deusa que corre em ajuda da mãe, assim como vigia as crias de todas as coisas vivas, Artemisa como arquétipo representa a faceta da mulher que possui uma ligação genuína e profunda com a terra, e é capaz de agir por amor, apesar dos ultrajes, na protecção das florestas, animais, mulheres e crianças, do planeta e das partes vulneráveis de si mesma.

Robert Bly, em Iron John, incita os homens a reinvidicarem o arquétipo do homem selvagem (em contacto com a natureza), e Clarissa Pinkola Estés escreve acerca da reconexão com um arquétipo de mulher correspondente: são partes instintivas de nós próprias de que carecemos para estarmos totalmente vivos. Na meia-idade, o desejo que vem da alma de sermos reais para connosco contribui para as crises que criamos inconscientemente, quando não reconhecemos conscientemente que não nos sentimos vitais e autênticas. Há um ímpeto em nós para nos tornarmos uma pessoa integral, e quando perdemos tempo na floresta metafórica e na floresta real ou mundo natural, estamos expostas à possibilidade de reaver e desenvolver a nossa natureza instintiva, a nossa ligação espiritual com a Natureza e o nosso sentido de sermos unas com o universo.”

Jean Shinoda Bolen, Travessia para Avalon, Planeta Editora

Imagem: Diana Vandenberg

A EXCISÃO EM AFRICA


"A excisão em África reduz a mulher ao estado animal"

"As mutilações sexuais femininas tornaram-se um dos crimes mais ignóbeis contra a Humanidade, indica um documento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Com efeito a maior parte das mulheres africanas são vítimas de fístulas vesicovaginais como consequência das mutilações sexuais. Entre 100 e 132 milhões de entre elas sofrem das consequências desta prática. A cada ano um número acrescido de 2 milhões de raparigas arrisca-se a sofrer a mesma sorte. Tornam-se incontinentes, o que lhes vale serem banidas da sociedade. Morrem, por vezes.

Estas condições reduzem as mulheres ao estado animal.

Estas operações infamantes são praticadas em África, na Ásia, no Médio Oriente e na Península Arábica. A excisão é igualmente praticada no Peru, nomeadamente entre os Conibos, tribo de índios Panos do nordeste do país.

Tudo começa quando uma rapariguinha se aproxima da maturidade: é drogada e submetida a mutilações na presença do grupo familiar. A operação é praticada por uma mulher mais velha com a ajuda de uma lâmina de bambu. Consiste no corte do hímen à entrada da vagina e separação dos lábios, expondo completamente o clítoris. De sublinhar que o peso da tradição é tal que as mulheres têm dificuldade em relacionar a excisão com as suas consequências para a saúde e a reprodução, afirma a fonte.

Para erradicar o carácter nefasto destas práticas existem, no Burkina Faso como no Senegal, textos legais que as reprimem, não acontecendo o mesmo ainda no Mali, na Gambia ou na Guiné-Bissau. Daí a "transumância"das excisadoras, o que torna difícil o combate aos relapsos, do mesmo modo que os próprios pais contribuem para a perpetuação do fenómeno enviando as filhas para os países vizinhos, onde as fazem excisar sem temer qualquer acção dos poderes públicos.

Os parlamentares eleitos de vários países da África Ocidental insistem na necessidade da harmonização das legislações. As coisas avançam lentamente. Em África as mulheres batem-se pelo recuo desta prática; em Paris, Pierre Foldes, cirurgião urologista e responsável para a Ásia dos Médicos do Mundo, inventou uma técnica de reparação do clítoris.

A título de referência: a mutilação sexual feminina mais frequente é a excisão do clítoris e pequenos lábios, representando perto de 80% dos casos. A forma extrema é a infibulação: cerca de 15% dos casos. Um estudo sobre as mutilações sexuais femininas realizado em 1998 fornece detalhes sobre as consequências físicas, psicológicas e sexuais nas mulheres e raparigas que as suportam.

As consequências físicas são as seguintes: falecimento, hemorragias, choques, lesões nos órgãos vizinhos, infecções, dores agudas, ausência de cicatrização, formação de abcessos, dermatoses, quistos, quelóides, neurones de cicatriz, dispareunia, HIV/SIDA, Hepatite B e outras doenças transmissíveis pelo sangue, pseudoinfibulação, infecção das vias genitais, dismenorreias, retenção urinária, infecção das vias urinárias, obstrução crónica das vias urinárias, incontinência urinária, estenose da abertura artificial da vagina, complicações no trabalho de parto.

O ideal seria que toda a sociedade e particularmente os líderes de opinião como são os parlamentares, as autoridades tradicionais e os responsáveis religiosos, bem como os médicos e os técnicos de saúde se mobilizasse para proteger as jovens de tais práticas que atentam contra a dignidade da mulher e deixam marcas duradouras na sua integridade física e moral e perturbam as relações entre homens e mulheres."

Doudou Esungi

Texto e imagem: http://anteromanuel.blogs.simplesnet.pt/

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O Arquétipo da "Mulher Selvagem"

A deusa Artemisa corresponde ao arquétipo da Mulher Selvagem


“Sentir, pensar ou agir segundo qualquer um dos seguintes exemplos representa ter um relacionamento parcialmente prejudicado ou inteiramente perdido com a psique instintiva profunda. Usando-se exclusivamente a linguagem da mulher, trata-se de sensações de extraordinária aridez, fadiga, fragilidade, depressão, confusão, de estar amordaçada, calada à força, desestimulada. Sentir-se assustada, deficiente ou fraca, sem inspiração, envergonhada, com uma fúria crónica, instável, amarrada, sem criatividade, deprimida, transtornada. Sentir-se impotente, insegura, hesitante, bloqueada, incapaz de realizações, entregando a própria criatividade aos outros, escolhendo parceiros errados, empregos ou amizades que lhe esgotam a energia, sofrendo por viver em desacordo com os próprios ciclos, super-protectora de si mesma, inerte, inconstante, vacilante, incapaz de regular a própria marcha ou de fixar limites. Não conseguir insistir no seu próprio andamento, preocupar-se em demasia com a opinião alheia, afastar-se do seu Deus ou dos seus deuses, isolar-se da sua própria revitalização, deixar-se envolver exageradamente na domesticidade, no intelectualismo, no trabalho, ou na inércia, porque é esse o lugar mais seguro para quem perdeu os próprios instintos.

Recear aventurar-se ou revelar-se, temer procurar um mentor, mãe, pai, temer exibir a própria obra, antes que esteja perfeita, temer iniciar uma viagem, recear gostar de alguém ou dos outros, ter medo de não conseguir parar, de se esgotar, de se exaurir, curvar-se diante da autoridade, perder a energia diante de projectos criativos, encolher-se, humilhar-se, ter angústia, entorpecimento, ansiedade. Ter medo de revidar quando não resta outra coisa a fazer, medo de experimentar o novo, medo de enfrentar, de exprimir a sua opinião, de criticar qualquer coisa, de sentir náuseas, aflição, acidez, de sentir-se partida ao meio, estrangulada, conciliadora e gentil com extrema facilidade, de ter sentimentos de vingança.

Ter medo de parar, ter medo de agir, contar até três repetidamente sem conseguir começar, ter complexos de superioridade, ambivalência e, no entanto, não fosse por isso, ser plenamente capaz, em perfeito funcionamento. Essas rupturas são uma doença não de uma era, nem de um século, mas transformaram-se em epidemia a qualquer hora e em qualquer lugar onde as mulheres se vejam aprisionadas, sempre que a natureza selvática tiver caído na armadilha.

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo; robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, está na hora da mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez.”

Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos, Rocco (pgs 24 a 26)

Imagem: www.rosanevolpatto.trd.br

domingo, 16 de setembro de 2007

O Retorno do Feminino

Erth Mother, self portrait, 1991 - Diana Vandenberg

"A dimensão receptiva, passiva
e interiorizada do Ser
é o pólo Yin,
o seu lado mais obscuro,
o que dificilmente hoje se manifesta.
Séculos de História,
criaram a supremacia do yang.
Esta supremacia deu origem a uma Cultura
predominantemente Masculina.
Com o Tempo, a afirmação Yang
levou à perda do Yin.

O nosso lado passivo, feminino
interiorizado, meditativo e receptivo,
deixou progressivamente de ser valorizado
pelo pensamento comum.
Sem se darem conta, as Mulheres
ficaram condicionadas e limitadas
por uma sociedade criada por Homens
e para Homens,
onde a sua contribuição feminina
não encontra lugar.
No século XX, a afirmação do Yang
tornou-se de tal modo radical,
que o comum das pessoas se perdeu
das experiências mais profundas da Vida,
reveladas pela dimensão interior.

Já ninguém sabe lidar com a noite,
com a pausa,
com os intervalos na acção,
com tudo o que existe
quando se acaba o movimento.

Não se valoriza o Silêncio,
o que não tem forçosamente que ser dito,
o que se subentende.

As pessoas perderam-se do Yin,
confundidas no Yang,
na afirmação extrovertida da personalidade,
nas conquistas,
nas guerras de todas as naturezas."

Maria Flávia de Monsaraz, O Retorno do Feminino
.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

As Guardiãs

Birth, Diana Vandenberg

"AS MULHERES SÃO AS GUARDIÃS TITULARES
DE TUDO O QUE HÁ DE PURO E JUSTO NA VIDA"
Mahatma Gandi

In Mulheres & Deusas

Foi a partir deste pressuposto que Oprah Winfrey criou na África do Sul a sua escola de liderança para raparigas.








Uma Flor pela Paz no Mundo

Hoje, 14 de Setembro, com o Dalai Lama em Portugal, uma fotógrafa muito talentosa ofereceu-me esta belíssima imagem de uma flor ainda em botão. Que ela seja um símbolo da PAZ para todos nós e para o nosso mundo.
Mensagem para a sua autora:
Nós, Mulheres, precisamos do brilho umas das outras.
Que Afrodite, Deusa da Beleza, esteja connosco.

DALAI LAMA


Questão urgente:

"O QUE VALEM PARA O MUNDO OS HOMENS DE PAZ?"
Resposta de Rosa Leonor: "O mesmo que as mulheres"...



Imagem: Google

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

NOVOS LIVROS E ACTIVIDADES

Chamo a vossa atenção para "NOVIDADES"!

AS DEUSAS EM CADA MULHER

HÉSTIA, divindade grega do Lar, filha de Crono e de Reia; a VESTA dos Latinos (Lello Universal)
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“Não tardei a ver “Deusas em Cada Mulher”. Descobri que o facto de saber que “deusa” estava presente aprofundava os meus conhecimentos acerca das ocorrências de todos os dias, bem como acerca dos acontecimentos mais dramáticos. Por exemplo: que deusa podia estar a revelar a sua influência numa mulher que cozinha e executa trabalhos domésticos?

Apercebi-me da existência de um teste simples: quando o marido está ausente durante uma semana, o que faz a mulher em termos de comida e o que acontece à casa? Quando uma mulher Hera (abreviatura de “essa deusa é a influência dominante”) ou uma mulher Afrodite comem sozinhas, é uma tristeza e uma desolação: talvez queijo fresco comido da embalagem. Quando qualquer delas está sozinha, serve-lhes seja o que for que haja no frigorífico ou no armário, contrastando vincadamente com as refeições elaboradas e deliciosas, se o marido está em casa. Cozinha para ele. Faz aquilo de que ele gosta, evidentemente, em vez daquilo que ela prefere, porque é uma boa esposa que fornece boas refeições (Hera), porque a sua natureza a leva a cuidar dele (Deméter), porque faz o que lhe agrada a ele (Perséfona), ou porque procura atraí-lo (Afrodite). Porém, se Héstia for a deusa que a influencia, a mulher põe a mesa e arranja uma boa refeição para si própria, quando está sozinha. E a casa estará arrumada como é habitual. A motivação para o trabalho doméstico nas outras deusas é muito provavelmente negligenciada durante a ausência do marido, até uns dias antes do seu regresso. Uma mulher Héstia arranjará flores que nunca serão vistas pelo homem ausente. O apartamento ou a casa dela será sempre um lar, porque vive lá e não porque o prepare para outra pessoa.

A seguir vem a pergunta: “Será que outras pessoas também acham útil e eficaz esta maneira de conhecer a psicologia da mulher por intermédio dos mitos?” A resposta surgiu quando realizei conferências sobre “As Deusas em Cada Mulher”. Os ouvintes ficavam entusiasmados, intrigados e excitados com a ideia de usar a mitologia como uma ferramenta de conhecimento. Era uma maneira de as pessoas compreenderem as mulheres, uma maneira que as tocava emocionalmente. Quando apresentava estes mitos, as pessoas viam, sentiam e escutavam aquilo de que estava a falar; quando os interpretava, reagiam com “Ah!”. Tanto os homens como as mulheres, apreendiam o significado dos mitos como uma verdade pessoal, verificando qualquer coisa que já sabiam e da qual se apercebiam nesse momento.”

Jean Shinoda Bolen, As Deusas em Cada Mulher, Planeta Editora
(Da mesma autora e editora existe também Os Deuses em Cada Homem)

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

EMPREGO OU VOCAÇÃO?

ATENA, deusa grega, do Pensamento, das Artes, das Ciências e das Indústrias, filha de Zeus, divindade epónima de Atenas, assimilada a Minerva pelos romanos (Lello Universal)
(imagem Google)

"Enquanto deusa da Sabedoria, ATENA era conhecida pelas suas estratégias vitoriosas e soluções práticas. Enquanto arquétipo, ATENA é o padrão seguido pelas mulheres lógicas, mais dominadas pela cabeça do que pelo coração.
ATENA é um arquétipo feminino: revela que pensar bem, não perder a cabeça no calor de uma situação emocional e desenvolver boas tácticas no meio de um conflito são traços naturais de algumas mulheres. Estas mulheres estão a ser como ATENA e não a agir "como um homem". O seu aspecto masculino, ou animus, não está a pensar por ela: é ela própria quem está a pensar bem e com clareza."

Jean Shinoda Bolen, As Deusas em Cada Mulher



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Acabo de ler, na revista Activa deste mês de Setembro, um artigo com um título apelativo e inspirador: Sabe negociar o seu valor? e cujo tema é a carreira profissional.

Já pensava escrever algo sobre este assunto, sobretudo depois do post Escravas ou Rainhas? em que Marianne Williamson nos diz que uma das coisas que as mulheres usam para "preencherem o vazio" é um "emprego". Achei que esta afirmação poderia dar azo a más interpretações, poderia eventualmente pensar-se que a autora sugere que as mulheres não deveriam ter vida profissional... Não é o caso, embora tenha ficado a saber há tempos, num dos programas da Oprah, que nos Estados Unidos há actualmente um forte movimento de jovens mulheres que aspiram muito simplesmente a reviver o velho modelo da fada do lar, dispondo-se para isso a abdicarem de vida profissional e a dedicarem-se inteiramente à família...
Entretanto, contestando essa tendência, num livro recentemente publicado também nos Estados Unidos, The Feminine Mistake (O erro feminino), a autora, Leslie Bennetts, analisa em profundidade os benefícios não monetários do trabalho para as mulheres: "é muito importante que as mulheres planeiem carreiras com um trabalho valorizante bem adaptado aos seus talentos, para além de um salário. O trabalho pode dar às mulheres não só uma segurança económica, mas redes sociais gratificantes, estímulo intelectual, satisfação criativa, orgulho em realização individual, e um sentido independente de oportunidade que ajuda a fortificar as mães face ao que se chama de "ninho vazio", o momento em que os filhos deixam a casa."(in Público, 15/06/07)
Mas é óbvio que um “emprego” é algo muito diferente de uma carreira onde eu sinta que aplico todo o meu potencial, as minhas capacidades, o meu talento, a minha vocação.

A este propósito, Em Matar o Macaco, Colin Turner afirma: "A sua vocação é algo por que todas as fibras do seu corpo anseiam, que o estimula emocionalmente, o motiva mentalmente e o realiza espiritualmente. Como tal, é de suprema importância. Ter uma vocação e segui-la dá significado àquilo que fazemos."
Uau! Estamos a milhas de um "emprego", não?
O mesmo autor acrescenta ainda: "o processo de descobrirmos a nossa vocação implica que sejamos honestos e fiéis a nós mesmos. Quando somos nós próprios, tornamo-nos receptivos à compreensão daquilo que temos de fazer."

Estou certa de que Marianne Williamson concordaria com esta achega...

Posto isto, volto ao artigo da revista que referi no início, transcrevendo uma parte que me pareceu particularmente interessante:

Inteligência emocional mais valorizada

Os conceitos de talento e valor mudam ao longo do tempo. Passámos de uma economia de produção para uma economia de conhecimento. Luís Moura revela que, no seio da PT, existe um grupo alargado de talentos, chamado “sector crítico”, que, “pela sua atitude e perfil pessoal e profissional, tentamos que se mantenham na empresa”. Mas, afinal, o que define este perfil especial?

“São profissionais com capacidade de motivação de equipa, que fazem acontecer, que não só cumprem objectivos como fazem com que 1+1 seja mais que 2”, explica o responsável da PT.

Jorge Marques avança boas notícias: As mulheres são francamente melhores, especialmente no que toca a postos de chefia. Hoje, o perfil valorizado apela ao que se chama de inteligência emocional: grande intuição, capacidade relacional, criatividade, flexibilidade intelectual, maior abertura à inovação. Todas estas características são tipicamente femininas.”

Agora as más notícias (ainda segundo a mesma fonte):

Quanto mais alto o nível hierárquico e as habilitações, menos as mulheres ganham em comparação com os seus pares masculinos. As mulheres quadros superiores e dirigentes auferem uns chocantes 70% do rendimento masculino nos mesmos postos (INE, 2005).

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS


"Sensação de vazio, fadiga, medo, depressão, bloqueio e falta de criatividade são sintomas cada vez mais frequentes entre as mulheres de hoje, assoberbadas com a acumulação de funções domésticas e profissionais. Este problema, segundo a psicóloga Clarissa Pinkola Estés, não é, porém recente: apareceu com o desenvolvimento de uma cultura que transformou a mulher numa espécie de animal doméstico.

Através da interpretação de dezanove lendas e histórias antigas, entre elas as de Barba-Azul, O Patinho Feio ou Sapatinhos Vermelhos, a autora identifica o arquétipo da Mulher Selvagem - ou a essência da alma feminina, a sua psique instintiva mais profunda - e propõe o resgate desse passado longínquo como forma de atingir a verdadeira libertação.
Técnicas de psicologia junguiana e algumas formas de expressão artística ligadas ao corpo podem ajudar na tarefa, mas a compreensão da natureza dessa mulher selvagem, com todas as características de uma loba, é uma prática para ser exercida ao longo de toda a vida."
Texto de apresentação do livro:
  • MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS - Mitos e Lendas da Mulher Selvagem, Clarissa Pinkola Estés, Rocco (para ler, click sobre a imagem)

Imagens: Google

terça-feira, 4 de setembro de 2007

ESCRAVAS OU RAINHAS?

“A cada momento a mulher faz uma escolha: entre a sua condição de rainha e a de escrava. No nosso estado natural somos criaturas magníficas. No mundo da ilusão, estamos perdidas e aprisionadas, escravas dos nossos apetites e do nosso desejo de falso poder. O nosso carcereiro é um monstro de três cabeças: uma é o nosso passado; outra a nossa insegurança; e a outra a nossa cultura popular.

O passado é uma história que existe apenas nas nossas mentes. Observe, analise, entenda e esqueça. Depois, o mais rapidamente possível, livre-se dele.

A nossa insegurança é inevitável na ausência de um significado pessoal. Sem um sentido de ligação a ideias mais profundas e mais nobres, estamos fadadas a lutar desesperadamente por coisas que preencham o vazio: um emprego, um relacionamento, a aparência, o corpo. Somos obcecadas pela ideia de que não somos perfeitas. Nem um nazi com uma metralhadora seria uma presença tão atormentadora.

A terceira cabeça do monstro é a cultura popular que mantemos colectivamente, gastando rios de dinheiro por ano. Ela não nos dá qualquer apoio em troca. A maioria dos filmes não aprecia a mulher, a maioria dos anúncios publicitários não aprecia a mulher, a maior parte da indústria da moda não aprecia a mulher, e a maioria das letras de rock não aprecia a mulher (uma pena, esta última – dantes apreciava). Como muitas esposas agredidas, procuramos incansavelmente o amor onde é impossível encontrá-lo. Devemos conscientemente decidir não fazer mais isso.

Até decidirmos, o monstro manter-nos-á aprisionadas na sua masmorra. Bem no fundo de nós, entretanto, há um compartimento de escape inato. Nele o amor nunca termina nem vacila, não ganha dinheiro à nossa custa, não nos engana, nem destrói os nossos corações. Ele é o âmago do nosso espírito. Nele vivemos como rainhas cósmicas: mães, irmãs, filhas do sol, da lua e das estrelas. Nesse reino, encontramos Deus, a Deusa, e os nossos amáveis egos. Ria de tudo isso por sua conta e risco.

O mundo exterior contém muitas fantasias, e essas fantasias exercem uma influência perniciosa sobre nós. Eu sei isso. Mas ouvi uns segredos espirituais, e você também os teria ouvido se estivesse atenta. Existem meios de transcender, meios de seguir adiante. Podemos deixar o monstro para trás. Podemos encontrar a libertação para os nossos corações e retornar a um mundo de rosas perfumadas.

Existe uma porta, uma porta verdadeira, uma passagem de oportunidade emocional, e somos perfeitamente capazes de entrar por ela. Os anjos mantêm-na aberta para todas nós. Mas temos de ser audaciosas. Mocinhas ingénuas não vêem anjos, portanto mocinhas ingénuas não encontram essa porta.”

Marianne Williamson, O Valor da Mulher, Rocco (adaptado)

Imagem: www.courtyardofromance.com

sábado, 1 de setembro de 2007

CÍRCULOS DE MULHERES

"Grupos conduzidos por e para mulheres são o nosso refúgio psíquico; o nosso local para descobrirmos quem somos ou aquilo em que poderemos tornar-nos como seres integrais e independentes. Em algum momento nas nossas vidas, cada uma de nós precisa de um território livre, um pequeno território psíquico. Você tem um?"
Glória Steinem (citada por Jean Shinoda Bolen)


Guia para Círculos de Mulheres:

  • O MILIONÉSIMO CÍRCULO, das editoras Taygeta e Triom, Brasil, distribuído em Portugal pela Dinalivro

O Milionésimo Círculo propõe nada menos que a possibilidade visionária de que círculos de mulheres podem acelerar a mudança da humanidade para uma era pós-patriarcal. Com directrizes sobre como e com quem formar um círculo ou como antecipar e resolver conflitos em potencial, Jean Shinoda Bolen fornece ferramentas e inspiração para mulheres que querem criar novos círculos ou aprofundar e transformar círculos já existentes em veículos de mudança social, cultural e psicoespiritual.”
(Texto de apresentação do livro)

Diz May East no prefácio:

“Círculos são para nós, mulheres, que ao abrirmos um espaço na cultura ocidental de orientação masculina nos distanciámos do nosso saber feminino e nos moldámos na forma firme, rígida, pró-activa, linear, racional e competitiva do mundo masculino. Nos círculos integramos a força assertiva do yang com o coração compassivo do Yin no vale das possibilidades femininas. Renovamos o nosso espírito e celebramos o poder da mulher que, enraizada nos seus mistérios, sana sem mais demora as feridas da Terra, promove a igualdade entre os povos e a paz através da cultura.”

"... nos círculos onde nos vemos a nós mesmas, ouvimo-nos como a um milagre, e eu retomo uma canção que já foi minha..."
Janice Mirikitani, Where Bodies are Buried (citada por Jean Shinoda Bolen)

Jean Shinoda Bolen, M.D., é analista junguiana, autora de livros maravilhosos, entre os quais destaco um em particular, TRAVESSIA PARA AVALON.