quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A ESCRITA AUTOBIOGRÁFICA E A CRIANÇA INTERIOR

Diana Vandenberg, Beatrice and the Unicorn

Na segunda-feira passada, acabei o primeiro módulo do Curso de Escrita Autobiográfica que tinha como tema a casa. Sem grandes preocupações literárias, escrevemos sobre os vários aspectos e espaços que compunham o nosso primeiro cosmos (aquilo que se opõe ao caos original). Por vezes saímos do primeiro para os restantes, chegando até ao nosso espaço actual.Acredito que, ao nascermos, trazemos já uma longa história como bagagem, e que é a síntese dessa história (ou histórias) que determina o nosso lugar no mundo. Fala-se também em escolha consciente da nossa alma ao encarnar, em programa de vida pré-estabelecido. Seja como for, algo nos atraiu para aquele lugar em particular, entre tantos outros que compõem este mundo. A partir deste pressuposto, abolimos a tendência, muito cómoda na aparência, para culpabilizar pais, familiares e uma grande quantidade de outras circunstâncias por coisas que consideramos menos boas na nossa vida. Só quando rejeitamos esse papel de vítimas, podemos assumir plenamente o de sujeitos responsáveis e detentores de poder sobre nós e sobre a realidade que nos rodeia.
Revisitar o primeiro espaço pelo qual a nossa alma se sentiu atraída, compreender a posição que nele ocupámos e a visão que daí o mundo nos oferecia, permite-nos entender o modo como esse primeiro modelo de mundo determinou a percepção do mundo em geral ao longo da nossa vida, tornando-se então mais óbvio o modo como fomos atraindo as pessoas e as circunstâncias mais adequadas para o irmos perpetuando.
Estamos portanto a falar de uma verdadeira terapia, quiçá de uma prototerapia (algo que vem antes da terapia), se assim podemos dizer, na medida em que se torna um excelente ponto de partida para outras terapias porventura mais profundas (nos casos em que sejam necessárias). Trata-se seguramente de uma metodologia segura e interessante, até porque à partida fácil e, na maior parte dos casos até, muito agradável. É no entanto aconselhável que o façamos com algum desprendimento, sem saudosismos nem apego, o que, claro, nem sempre é fácil. Convém irmos até lá sem ficarmos lá, porque o vasto mundo espera por nós para o descobrirmos e nele nos sentirmos em casa.
Esta espécie de logoanálise (análise feita a partir dos espaços que habitamos) para usar a terminologia de Gaston Bachelard em A Poética do Espaço, permite-nos entender as dores e os traumas, mas também os aspectos mais luminosos e habilitadores, da nossa criança interior. A partir dessas evidências, sabemos do que precisa essa parte de nós, e, usando as estratégias preconizadas por Louise Hay no seu Método (mas também por outras terapias como a Programação Neurolinguística), podemos tratar dela, escutar o que tem para nos dizer, dar-lhe segurança e fornecer-lhe os recursos de que precisa para que possa resgatar os seus aspectos mais luminosos.
Devo lembrar que este conceito de criança interior, parafraseando Vera Faria* e outros autores, refere-se ao nosso eu verdadeiro, um ser de amor incondicional, espontâneo, extrovertido, criativo, alegre e completo, que está connosco desde sempre. Na tradição cristã, é simbolizado pelo Menino Jesus ( na nossa tradição literária, menino(a) apenas), com as suas qualidades de pureza, integridade, inocência, máxima receptividade, estado original – numa palavra, a Alma.
Foi pois uma experiência e tanto este primeiro módulo do curso que frequentei na Companhia do Eu, com Pedro Sena-Lino, um excelente dinamizador, culto, atento, carinhoso, encorajador, revelando igualmente muito da sua própria alma – uma excelente Companhia!

*Descubra a Sua Criança Interior

Encontrei aqui um poema interessante, porque fala exactamente destas questões da infância e da recriação ao longo da vida do modelo do mundo que aprendemos então:

Infância
Quando pequena
Meu quintal era enorme.
Tinha rios, castelos e florestas,
Trilhas sinuosas e duendes e dragões.
E eu seguia aquelas trilhas,
Catando na terra mágicas sementes
Que marcariam meu caminho de volta à segurança.
Meu quintal não existe mais,
E eu cresci.
E surpresa, me dei conta
que ainda busco, hoje, os sinais e a magia
Daquelas trilhas que eu antes percorria.



2 comentários:

perplexo disse...

Gostei do «Convém irmos até lá sem ficarmos lá, porque o vasto mundo espera por nós para o descobrirmos e nele nos sentirmos em casa». É também isso que eu acho.
Num curso que a empresa me deu, sobre relações interpessoais e análise transacional, chamava-se à componente do nosso eu primitiva e ainda não espartilhada pelas regras sociais e ainda não reactiva a essas mesmas regras «Criança livre». Revi-a neste texto. Deixo um link com uma explicação rudimentar de análise transacional.
http://pt.wikipedia.org/wiki/An%C3%A1lise_Transacional.
Bj
perplexo

Luiza Frazão disse...

Perplexo,
Obrigada pelo teu comentário e pela informação que contém sobre a outra designação para "Criança Interior", que é "Criança Livre". Irei consultar o espaço que referes.
Bj.

Luíza